Você já se sentiu como um hamster numa roda gigante? Correndo, correndo, mas sem chegar a lugar algum? Olhando para o relógio e percebendo que mais um dia se foi, mas a sensação é de que você apenas sobreviveu, não viveu?

Bem-vindo ao mundo do Kronos, o tempo tirano que nos aprisiona. É o tempo quantitativo, mecânico, implacável. É o tempo dos despertadores que tocam cedo demais, das reuniões que se arrastam, dos prazos que sufocam, das agendas que não param. Kronos não conhece misericórdia: devora seus filhos como o deus grego que lhe empresta o nome, consumindo nossa vida minuto a minuto, segundo a segundo.

Mas a Bíblia nos revela um segredo revolucionário: existe outro tempo. Um tempo que não aparece nos relógios, mas pulsa no coração. Kairós, o tempo de Deus, o tempo do significado, o tempo da oportunidade divina.

O salmista, em sua angústia existencial, clama: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Salmo 90:12). Ele não está pedindo para ser melhor em matemática ou administração do tempo. Está implorando por sabedoria para discernir entre os dias que apenas passam, o kronos, e os dias que realmente importam, o kairós.

Lembra daquele momento em que você segurou seu bebê pela primeira vez? Ou quando perdoou alguém que te machucou profundamente? Aqueles instantes podem ter durado poucos minutos no kronos, mas permanecem vivos em você até hoje. Isso é kairós: tempo carregado de eternidade.

Quando Jesus curava no sábado, os fariseus se escandalizavam. Eles viviam presos ao kronos religioso, horários sagrados, rituais cronometrados. Mas Jesus se movia no kairós: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17). Para Ele, o momento certo de curar não estava na agenda semanal, mas na necessidade humana diante de si.

Eclesiastes nos sussurra esta verdade libertadora: “Há tempo para tudo e momento oportuno para cada coisa debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1). Não é uma lista de tarefas cronológicas, mas um convite à dança sagrada da vida. Há o kairós do luto, quando a alma precisa chorar. Há o kairós da alegria, quando o coração transborda de gratidão. Há o kairós do silêncio, quando as palavras são pequenas demais. E há o kairós de falar, quando o silêncio seria traição.

Jesus nos liberta da ansiedade do kronos quando diz: “Por isso não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mateus 6:34). Ele está nos dizendo: pare de tentar controlar o fluxo do tempo. Mergulhe no presente. Descubra que este momento, este kairós, já contém toda a eternidade de que você precisa.

O tempo que verdadeiramente importa não se mede em horas, mas em profundidade. É o tempo do abraço que cura, da conversa que transforma, da oração que conecta, do perdão que liberta. É o tempo em que você para de correr atrás da vida e começa a viver.

Como nos lembra Isaías: “Os que esperam no Senhor renovam as suas forças” (Isaías 40:31). Mesmo na espera, no que kronos chamaria de “tempo perdido”, há um kairós sendo tecido. Deus está trabalhando, preparando, restaurando.

Você não precisa ser escravo do relógio. Pode escolher viver no ritmo divino, onde cada momento é uma oportunidade sagrada, onde cada encontro é um kairós disfarçado de cotidiano. Pare. Respire. Olhe ao redor.

Deus está aqui. Agora. Neste kairós que você está vivendo ao ler estas palavras.

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