Há uma cena que toca profundamente minha alma toda vez que leio. Jesus está no meio da multidão faminta, cinco mil pessoas desesperadas por comida e esperança. Os discípulos, ansiosos, olham para o relógio da vida e dizem: “É tarde demais! Manda embora esta gente!” Mas Jesus… Jesus respira fundo, encara aquelas faces esgotadas e afirma: “Eles não precisam ir embora. Vocês lhes deem de comer.”

Enquanto todos corriam contra o tempo, Jesus habitava o tempo. Ele não estava preso à urgência do momento, mas ancorado na eternidade do Pai. E cinco pães e dois peixes se tornaram banquete para milhares. Quando vivemos no tempo de Deus, o impossível acontece em nossas vidas.

Jesus nunca teve pressa. Nunca. Pense nisso. O Salvador do mundo, com apenas três anos de ministério, jamais correu desesperado atrás de uma agenda. Quando as irmãs de Lázaro mandaram recado urgente: “Senhor, aquele a quem amas está doente”, Jesus… permaneceu mais dois dias onde estava. Dois dias! Imagine o desespero de Marta e Maria: “Onde está Jesus? Por que Ele não vem? Não entende que é urgente?”

Mas Jesus sabia algo que elas ainda não sabiam. Ele não estava atrasado, estava no tempo perfeito. “Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus.” Quando chegou, Lázaro já estava morto havia quatro dias. Marta, entre lágrimas e revolta, desabafou: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”

E então Jesus pronuncia palavras que redefinem toda a realidade: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” Ele não disse “Eu darei vida depois que vocês morrerem.” Ele disse: “EU SOU a vida.” Presente. Agora. Neste momento. A eternidade não é um destino, é uma Pessoa. E essa Pessoa estava ali, no meio da dor, transformando morte em vida, choro em celebração.

Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro. O Filho de Deus, que sabia que ressuscitaria o amigo, chorou. Por quê? Porque Ele sentia a dor humana do tempo. Conhecia a angústia da espera, o desespero da perda, o vazio da saudade. Jesus não era um deus distante brincando com bonecos. Ele mergulhou fundo na nossa experiência temporal para nos mostrar que Deus não está fora do nosso sofrimento, mas dentro dele, transformando-o.

“Lázaro, vem para fora!” E o morto saiu. Pés e mãos amarrados, ainda envolto em faixas mortuárias, mas vivo. Vivo! E Jesus, com a ternura de quem conhece cada ferida, disse aos presentes: “Desatem-no e deixem que vá.”

Essa é a revolução do tempo de Jesus. Ele liberta você das amarras do passado que não volta, da ansiedade do futuro que não chegou, do desespero do presente que parece sem saída. Ele sussurra sobre sua vida: “Libertem-no e deixem que viva.”

Quando a mulher samaritana, cansada de carregar cântaros pesados no calor do meio-dia, encontra Jesus no poço, Ele poderia ter dado uma resposta rápida e seguido viagem. Mas não. Jesus para. Senta-se. Espera. Conversa. Transforma sede em fonte, vergonha em testemunho, solidão em missão. Uma conversa que mudou uma vida, que mudou uma cidade inteira.

Jesus tinha tempo para uma. Ele sempre tinha tempo para uma pessoa. Uma criança no colo. Uma viúva desesperada. Um ladrão crucificado. Um jovem rico confuso. Uma prostituta perdoada. Para Jesus, não existiam multidões, apenas pessoas. E cada pessoa merecia a eternidade inteira de sua atenção.

Na última ceia, sabendo que tinha poucas horas antes da cruz, Jesus não fez um discurso de despedida apressado. Ele lavou pés. Um por um. Devagar. Com carinho. Pedro protestou, mas Jesus insistiu: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo.” Ele sabia que o tempo mais sagrado é aquele gasto amando concretamente, servindo humildemente.

E na cruz… ah, na cruz! Enquanto o mundo gritava “Desce daí, se és Filho de Deus! Salva-te a ti mesmo!”, Jesus habitava o tempo mais eterno de todos. Cada minuto de dor era uma eternidade de amor sendo derramada. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Enquanto morria, Ele ainda tinha tempo para perdoar.

Para o ladrão arrependido que sussurrou “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino”, Jesus não disse “espera um pouco até eu resolver tudo.” Ele disse: “Hoje estarás comigo no paraíso.” Hoje! Não após um período de purificação, não depois de provar que mudou, não quando conseguisse se redimir. Hoje. O tempo da salvação é sempre hoje.

Jesus viveu cada momento numa relação completamente livre com o tempo porque sabia quem era o dono do tempo. “A minha hora ainda não chegou”, dizia no início. “Chegou a hora”, afirmou no fim. Ele não era escravo dos momentos, era senhor deles. Não porque controlava o relógio, mas porque confiava no Pai que escreve a história.

E sabe o que isso significa para você? Significa que você pode parar de correr. Pode parar de viver em pânico, como se Deus tivesse perdido o controle da situação. Pode parar de achar que chegou tarde demais, que perdeu a chance, que não há mais tempo.

O mesmo Jesus que transformou água em vinho no tempo certo, que acalmou tempestades quando necessário, que ressuscitou Lázaro na hora perfeita, esse mesmo Jesus sussurra sobre sua vida: “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim.”

Você está no tempo dele. No kairós perfeito. Mesmo quando parece que tudo desmoronou, mesmo quando sente que chegou tarde demais, mesmo quando a morte parece ter a última palavra. Jesus está ali, no meio da sua dor, sussurrando: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Presente. Agora. Transformando seu maior desespero em sua mais gloriosa vitória.

Respire fundo. Você não está atrasado. Você está exatamente onde Deus quer que você esteja, no momento exato em que Ele quer que você esteja. E se Jesus pôde transformar morte em vida, imagine o que Ele pode fazer com o seu hoje.

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