Com quase 20 milhões de vínculos formais no universo analisado pelo Sebrae, as micro e pequenas empresas são decisivas para o mercado de trabalho. Os números também revelam por que contratar mais não significa necessariamente crescer com segurança.
O emprego formal brasileiro depende de um conjunto de negócios que raramente aparece entre as maiores companhias do país: lojas de bairro, oficinas, restaurantes, pequenas indústrias e prestadores de serviços. Cada empresa emprega relativamente poucas pessoas, mas o efeito agregado é expressivo.
Segundo o estudo Panorama do Emprego 2026, do Sebrae, construído com dados da RAIS de 2024, as micro e pequenas empresas (MPEs) respondiam por cerca de 70% dos empregos formais do comércio. No recorte nacional analisado, somavam 19,8 milhões de vínculos, frente a 19,5 milhões nas médias e grandes empresas. Os dados mostram concentração de empregos já existentes, não o percentual de novas contratações.

O tamanho das pequenas empresas aparece quando os empregos são somados
Das 19,8 milhões de posições mantidas por MPEs naquele levantamento, 7,5 milhões estavam nos serviços e 7 milhões no comércio. Esses dois setores representam, juntos, mais de sete em cada dez vínculos das micro e pequenas empresas. Isso indica forte ligação com o consumo das famílias e com a atividade econômica das cidades.
Uma atividade chama a atenção: restaurantes e similares, com mais de 721 mil empregos entre as MPEs. É a atividade individual que mais emprega dentro desse grupo, liderando em 13 estados e no Distrito Federal. Restaurantes pertencem aos serviços de alimentação, e não devem ser confundidos com o indicador de 70% do comércio. Na sequência do ranking aparecem o varejo de vestuário e o varejo de produtos farmacêuticos sem manipulação.

Há um efeito econômico relevante nessa distribuição. O salário pago por uma farmácia, loja ou restaurante abastece o orçamento das famílias; parte volta ao comércio e aos serviços da própria região. Isso não torna cada contratação automaticamente sustentável. A continuidade dos postos depende de vendas, produtividade, margem e capacidade de financiar as operações.
Mais do que empregar, as MPEs sustentaram a expansão das vagas
O retrato das novas vagas é ainda mais expressivo. Conforme o Sebrae, com base no Novo Caged, as MPEs responderam por 81,3% do saldo de empregos em 2023, 73% em 2024 e 80,5% em 2025. No conjunto desses três anos, foram aproximadamente 3,4 milhões de postos líquidos criados pelas pequenas empresas, de um saldo nacional de 4,4 milhões.
Saldo é a diferença entre admissões e desligamentos, não o volume total de contratações realizadas durante o período. Uma empresa pode admitir muitos trabalhadores e, ainda assim, terminar o ano com pequeno crescimento líquido no quadro de funcionários.
Em 2026, de janeiro a julho, a participação foi de 60,9%: as MPEs abriram 591.658 vagas líquidas, de um total nacional de 972.203. O resultado continua majoritário, mas indica participação menor do que a registrada no fechamento de 2025. Como se trata de um período parcial, não é correto apresentá-lo como resultado do ano inteiro.

O Novo Caged divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 29 de setembro de 2026 mostrou 1,134 milhão de empregos líquidos criados no Brasil de janeiro a agosto, sendo 697,9 mil em serviços. No comércio, o saldo acumulado foi de apenas 9,3 mil postos. Essa comparação expõe uma diferença essencial: um setor pode concentrar milhões de trabalhadores e, ao mesmo tempo, apresentar um ritmo modesto de expansão do emprego naquele ano. O resultado nacional até agosto não deve ser confundido com o recorte por porte de empresa disponível até julho.
A força das contratações convive com um limite: produtividade e remuneração
O estudo do Sebrae também identifica uma diferença salarial importante. Na RAIS de 2024, a remuneração média nas MPEs era de R$ 2,9 mil, ante R$ 4,2 mil nas empresas médias e grandes. A distância persiste mesmo depois de a remuneração das MPEs ter crescido 5% em termos reais entre 2022 e 2024, acima dos 3,7% registrados nas empresas maiores.
Escala, acesso a tecnologia, intensidade de capital e produtividade ajudam a explicar parte dessa diferença. Empresas pequenas, em geral, distribuem custos fixos por um volume menor de vendas e contam com menos reservas para atravessar períodos de demanda fraca. Gerar empregos é relevante; conseguir manter salários, qualificação e investimentos também é.
O crédito agrava essa equação. Na pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, divulgada pelo Sebrae em setembro de 2026, 25% dos pequenos negócios consultados tinham dívidas em atraso em julho. Entre os que buscaram financiamento nos três meses anteriores, 46% conseguiram aprovação. O indicador melhorou em relação a levantamentos anteriores, mas também significa que obter recursos continua longe de ser simples para muitos empreendedores.
Digitalizar é necessário. Organizar a operação é o desafio maior.
A transformação digital abre novas oportunidades, porém não elimina a necessidade de processos. No Radar Mercado Digital 2026, pesquisa do Sebrae e do E-Commerce Brasil com 3.081 empresários, 59,2% dos pequenos negócios que vendem online concentravam a operação de comércio eletrônico em uma única pessoa. O levantamento inclui MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.
Essa concentração costuma colocar no mesmo profissional tarefas de atendimento, cadastro de produtos, conteúdo, vendas e expedição. Quando a demanda cresce, a operação pode se tornar o gargalo. Como observou Ivan Tonet, do Sebrae: “O empreendedor que faz tudo sozinho não dá conta de fazer a operação no digital bem-feita.”
Automatizar confirmações, organizar pedidos, acompanhar estoque, padronizar atendimento e medir o retorno de cada canal ajudam a transformar aumento de vendas em capacidade real de atendimento. O objetivo não é necessariamente reduzir pessoas. É fazer com que a equipe tenha condições de atender mais clientes, com qualidade e sem desperdício.
O que esses números dizem sobre a economia brasileira
O Sebrae estima que os pequenos negócios representem 26,5% do PIB e paguem cerca de R$ 51 bilhões em remunerações mensais. Os percentuais de produção, estoque de empregados e saldo de novas vagas são indicadores diferentes e não devem ser tratados como equivalentes. Juntos, porém, mostram uma realidade: negócios de menor porte ocupam uma posição central na sustentação do trabalho formal e na circulação de renda.
Essa força não dispensa análise crítica. Se as pequenas empresas continuam contratando, mas enfrentam margens apertadas, dificuldade de financiamento, operação concentrada e salários mais baixos, o desafio não é apenas estimular a abertura de CNPJs. É criar condições para que esses negócios sobrevivam, aumentem produtividade, invistam em pessoas e mantenham os empregos ao longo dos anos.
O principal indicador de sucesso não será apenas quantas vagas uma pequena empresa consegue abrir, mas quantas consegue sustentar com crescimento, remuneração e eficiência.
Fontes e metodologia
- Sebrae – Panorama do Emprego 2026 (RAIS 2024): comércio, empregos e atividades
- Sebrae – Saldos do Novo Caged 2023 a 2025
- Sebrae – Geração de empregos por porte, janeiro a julho de 2026
- MTE – Novo Caged, agosto de 2026
- Sebrae – Remuneração nas MPEs
- Sebrae – Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios
- Sebrae/E-Commerce Brasil – Radar Mercado Digital 2026
- Sebrae – Participação no PIB e massa salarial
Nota: os dados de estoque (RAIS 2024) e os de saldo (Novo Caged 2023–2026) provêm de fontes e recortes temporais diferentes; não devem ser somados ou comparados como se fossem o mesmo indicador. Valores da RAIS arredondados conforme publicação do Sebrae.

