Fabricado pela Embraer em parceria com a sueca Saab, o F-39 Gripen marca uma nova etapa da indústria aeroespacial brasileira. O projeto envolve bilhões em investimentos, transferência de tecnologia e a formação de profissionais especializados para produzir aeronaves de combate de alta complexidade.


O primeiro caça supersônico Gripen E produzido no Brasil decolou às 10h21 do dia 6 de outubro de 2026, das instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo.
Pilotado por Jakob Högberg, chefe dos pilotos de teste da Saab, o avião realizou seu primeiro voo para verificar o funcionamento dos sistemas e avaliar seu desempenho. A operação contou com planejamento e execução de engenheiros de voo da Embraer.
O teste representa mais do que a estreia de uma aeronave. Pela primeira vez, um caça Gripen construído fora da Suécia realizou seu voo inaugural, confirmando que o Brasil desenvolveu capacidade industrial para montar, integrar e testar esse modelo de avião de combate.
O Gripen brasileiro é resultado de uma parceria construída ao longo de mais de uma década entre o governo brasileiro, a fabricante sueca Saab e empresas nacionais.
Quem realmente fabricou o Gripen brasileiro?
O F-39 Gripen E é um projeto desenvolvido pela Saab, empresa sueca especializada em tecnologia de defesa e segurança.
No Brasil, a fabricação é realizada pela Embraer, responsável pela montagem final, integração de sistemas e testes da aeronave em Gavião Peixoto (SP).
A produção funciona por meio de uma cadeia industrial internacional:
- Saab, na Suécia: desenvolve a plataforma Gripen e fornece tecnologia, engenharia e componentes.
- Saab, em São Bernardo do Campo (SP): fabrica partes estruturais da aeronave, incluindo seções da fuselagem e componentes aerodinâmicos.
- Embraer, em Gavião Peixoto (SP): reúne as estruturas, instala os sistemas e realiza os testes necessários antes da entrega.
- Outras empresas brasileiras: participam do desenvolvimento, da engenharia e do fornecimento de tecnologias, como Akaer, Atech e AEL Sistemas.
Isso significa que o caça não é integralmente brasileiro em sua origem tecnológica ou em seus componentes. Trata-se de uma aeronave sueca produzida no Brasil com participação industrial nacional, transferência de conhecimento e integração de fornecedores internacionais.
A distinção é importante: o avanço brasileiro não está em ter criado sozinho o Gripen, mas em conquistar competências industriais para produzi-lo, testá-lo e participar de seu desenvolvimento.
Um contrato de 39,3 bilhões de coroas suecas
Contrato original de 2014
SEK 39,3 bi
Valor anunciado na assinatura
Aeronaves contratadas
36
28 Gripen E e 8 Gripen F.
Produção no Brasil
15
Caças Gripen E previstos
Profissionais capacitados
350+
Brasileiros treinados pela SaabFontes: Saab, contrato de 2014 e informações oficiais do Programa Gripen Brasileiro.
A história começou em dezembro de 2013, quando o Brasil escolheu o Gripen para modernizar sua frota de combate.
Em outubro de 2014, o governo brasileiro e a Saab assinaram um contrato de aproximadamente 39,3 bilhões de coroas suecas para o fornecimento de 36 aeronaves, equipamentos relacionados e cooperação industrial.
O acordo não se limitou à compra de aviões prontos. A negociação incluiu transferência de tecnologia, capacitação de profissionais e participação de empresas brasileiras no desenvolvimento e na produção dos caças.
Esse modelo permitiu ao Brasil construir uma estrutura industrial que vai além da montagem de aeronaves importadas.
Como funciona a fábrica brasileira?
A linha de produção do Gripen foi inaugurada em maio de 2023, dentro do complexo industrial da Embraer em Gavião Peixoto.
O processo começa com a fabricação de grandes estruturas da aeronave no Brasil e na Suécia. Essas peças são transportadas até a unidade da Embraer, onde ocorre a montagem final.
Depois são instalados os sistemas eletrônicos, sensores, cabos, trem de pouso, motor, radar e equipamentos necessários à operação do caça.
Antes de ser entregue à FAB, cada aeronave precisa passar por inspeções, testes funcionais e voos de aceitação.
Segundo a Saab, aproximadamente 200 profissionais estão envolvidos na operação brasileira, dos quais cerca de 60 trabalham diretamente na produção. Os demais atuam em áreas como engenharia, logística, qualidade e suprimentos.
É uma linha de fabricação de alta complexidade, que exige precisão, rastreabilidade e controle rigoroso de qualidade.
Como funciona o caça Gripen E?



O F-39 Gripen E é um avião de combate supersônico projetado para diferentes tipos de missão, incluindo defesa aérea, reconhecimento e ataque.
Um dos seus principais diferenciais está na integração entre sensores, computadores e sistemas de comunicação.
O caça utiliza radar de varredura eletrônica, sensores infravermelhos e sistemas de guerra eletrônica para identificar ameaças, reunir informações e apoiar as decisões do piloto.
Em vez de depender apenas de um equipamento isolado, o Gripen combina informações de diferentes fontes e apresenta os dados mais relevantes em suas telas digitais.
A aeronave também consegue compartilhar informações com outros aviões e centros de comando, permitindo ações coordenadas.
Essa capacidade é conhecida como fusão de sensores e representa uma das principais características da aviação de combate moderna.
O que o Brasil realmente ganhou com a transferência de tecnologia?
O principal resultado da parceria não está apenas nas 15 aeronaves previstas para produção nacional.
De acordo com a Saab, o programa envolveu mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos de transferência de tecnologia, com participação de mais de 350 especialistas brasileiros.
Esses profissionais receberam formação em atividades como engenharia aeronáutica, integração de sistemas, fabricação de estruturas e ensaios em voo.
Um exemplo concreto é a AEL Sistemas, de Porto Alegre, que passou a fornecer telas e equipamentos digitais para o cockpit do Gripen E/F, integrando a cadeia internacional de fornecimento da Saab.
Na prática, o programa abriu espaço para que empresas brasileiras participassem de atividades industriais e tecnológicas que não se restringem aos pedidos da FAB.
A transferência de tecnologia, porém, não representa domínio brasileiro sobre todos os componentes ou direitos de propriedade intelectual do caça. O ganho está nas capacidades efetivamente absorvidas e na participação da indústria nacional no programa.
Como funciona o negócio da Saab?
A Saab é uma companhia sueca de defesa e segurança que desenvolve e comercializa aeronaves militares, radares, sistemas de vigilância, armamentos e outras tecnologias.
Seu modelo de negócios é baseado em contratos de longo prazo com governos e organizações de defesa, envolvendo não somente a fabricação dos equipamentos, mas também treinamento, manutenção, suporte e modernizações.
O Gripen é uma das plataformas mais conhecidas da empresa, mas está longe de ser sua única atividade.
Em 2025, a Saab registrou um desempenho recorde:
Saab: desempenho financeiro em 2025
SEK 79,1 bi
Receita anual
+24%
Crescimento da receita
SEK 274,5 bi
Carteira de pedidos
Valores em coroas suecas. Fonte: Relatório anual da Saab de 2025.
Esse modelo de negócios explica por que a transferência de tecnologia e a produção internacional também interessam à Saab.
A empresa ganha capacidade de fabricação em diferentes países, amplia a proximidade com seus clientes e desenvolve uma rede internacional de fornecedores.
Para a Embraer, a parceria representa a oportunidade de ampliar sua atuação no segmento de defesa e participar de um programa global de aeronaves militares.
Brasil pode fabricar mais 20 caças para o mercado internacional
O impacto empresarial do programa ganhou uma nova dimensão em julho de 2026.
Durante o Farnborough International Airshow, na Inglaterra, Embraer e Saab anunciaram um acordo preliminar para a potencial fabricação de mais 20 aeronaves Gripen no Brasil.
A proposta prevê utilizar a linha de Gavião Peixoto como complemento à fábrica sueca de Linköping, ampliando a capacidade de atendimento à demanda mundial.
O acordo ainda não representa uma encomenda firme de 20 unidades. As empresas anunciaram a intenção de concluir as negociações em 2026.
Em novembro de 2025, a Saab fechou um contrato de 3,1 bilhões de euros com a Colômbia para o fornecimento de 17 caças Gripen E/F, incluindo armamentos, equipamentos, treinamento e serviços. O pedido representa uma oportunidade adicional para a cadeia produtiva internacional do programa.
A expansão também ocorre em um momento de crescimento do mercado internacional de defesa.
Para o Brasil, a possibilidade de produzir aeronaves destinadas a outros países é particularmente relevante. Isso permitiria utilizar a infraestrutura nacional além das encomendas brasileiras, aumentando a escala de produção e criando novas oportunidades para fornecedores locais.
Entretanto, a participação exata da fábrica brasileira em futuros contratos internacionais depende de acordos comerciais e industriais específicos.
O que o projeto representa para a indústria brasileira?
O primeiro voo do Gripen produzido no Brasil mostra o resultado de uma estratégia industrial de longo prazo: combinar investimento, capacitação e cooperação internacional para desenvolver competências tecnológicas no país.
O projeto também deixa uma questão importante para o futuro da indústria nacional. Não basta instalar uma fábrica avançada. É necessário manter sua atividade, desenvolver fornecedores competitivos e transformar o conhecimento adquirido em novos contratos.
O exemplo da Embraer mostra como uma empresa brasileira pode participar de uma cadeia global de alta tecnologia sem precisar desenvolver sozinha todos os componentes de um produto.
A fabricação de caças envolve milhares de decisões de engenharia, processos de qualidade e fornecedores especializados. Cada uma dessas atividades pode gerar conhecimento que permanece na indústria por décadas, desde que continue sendo utilizado e aprimorado.
O maior resultado do Gripen brasileiro não será medido apenas pela quantidade de aeronaves entregues, mas pela capacidade de transformar tecnologia adquirida em competência industrial permanente.
O voo de 6 de outubro é uma conquista concreta. O próximo desafio será fazer com que essa capacidade produtiva gere novos projetos, empregos qualificados e oportunidades internacionais para a indústria brasileira.
Fontes da reportagem
Pesquisa baseada em documentos oficiais e informações publicadas até 8 de outubro de 2026.
- Saab: primeiro voo do Gripen E produzido no Brasil (7/10/2026).
- Embraer: comunicado oficial do voo inaugural (7/10/2026).
- Saab: transferência de tecnologia e cooperação industrial.
- Embraer: acordo para potencial produção de mais 20 Gripen (21/7/2026).
- Saab: relatório anual de 2025.
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