O novo mercado de baterias para armazenamento de energia no Brasil

Negocios News
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Grandes baterias capazes de guardar eletricidade para uso posterior começam a ganhar espaço no país. WEG, Moura, BYD e outros grupos disputam um mercado impulsionado pelas energias renováveis, pela busca por segurança energética e pelos primeiros leilões de armazenamento do Brasil.

O Brasil avançou rapidamente na geração de energia solar e eólica. Agora começa uma segunda etapa dessa transformação: armazenar a eletricidade produzida para utilizá-la quando ela for mais necessária ou mais valiosa.

É esse o papel dos sistemas BESS, sigla para Battery Energy Storage System. Na prática, são grandes conjuntos de baterias conectados a inversores e softwares de gerenciamento. A energia pode vir de painéis solares, parques eólicos ou da própria rede elétrica, ser armazenada e depois liberada conforme a necessidade.

A lógica é simples:

gerar → armazenar → gerenciar → utilizar no melhor momento

Mas o impacto econômico é maior do que parece. A eletricidade deixa de ser apenas algo que precisa ser consumido no momento em que é produzido. Ela passa a funcionar, em certa medida, como um estoque administrável.

Um mercado que começa a ganhar escala

Os números mostram a velocidade dessa mudança.

Em 2025, foram vendidos e contratados 730 MWh em sistemas BESS no Brasil, volume superior ao acumulado nos cinco anos anteriores. Somente no primeiro semestre de 2026 foram outros 504 MWh, segundo levantamento da Greener divulgado pelo Brazil Journal. É importante observar que esses números representam sistemas comercializados ou contratados, e não necessariamente toda essa capacidade já instalada.

O crescimento acontece principalmente fora dos grandes projetos governamentais. Indústrias, comércios, propriedades rurais, condomínios e empresas com geração solar já começam a avaliar baterias como parte de sua infraestrutura energética.

Para Marcio Takata, CEO da Greener, o armazenamento distribuído pode se tornar “uma das grandes fontes de flexibilidade” do sistema elétrico brasileiro.

Essa flexibilidade é justamente o ponto central do negócio.

A energia solar produz muito durante determinadas horas do dia e praticamente nada à noite. A geração eólica varia de acordo com o vento. Ao mesmo tempo, empresas e consumidores não deixam de precisar de eletricidade quando essas fontes reduzem a produção.

As baterias criam uma ponte entre esses dois momentos.

Uma indústria com geração solar, por exemplo, pode armazenar parte da eletricidade produzida durante o dia e utilizá-la algumas horas depois. Também pode usar o sistema para reduzir seu consumo da rede em períodos mais caros, controlar picos de demanda ou manter parte da operação funcionando durante uma interrupção no fornecimento.

O Grupo Moura aponta exatamente essas aplicações em seus sistemas BESS: redução de custos no horário de ponta, controle de demanda, backup em blecautes e integração com fontes renováveis. A companhia também já levou a tecnologia para projetos envolvendo a rede elétrica, como uma iniciativa desenvolvida com a Cemig na UFMG.

A mudança é relevante porque a empresa deixa de apenas comprar e consumir eletricidade e passa também a administrar quando utilizá-la.

WEG, Moura, BYD e a disputa por um novo mercado

As empresas já perceberam o tamanho da oportunidade.

A WEG anunciou em fevereiro de 2026 uma nova fábrica de sistemas BESS em Itajaí, Santa Catarina. A unidade deverá elevar a capacidade produtiva da companhia para até 2 GWh por ano, equivalente a cerca de 400 sistemas de 5 MWh. O projeto recebeu aprovação de R$ 280 milhões em financiamento do BNDES.

O investimento vai além da construção de uma fábrica.

Segundo Alberto Kuba, presidente da WEG, a decisão busca posicionar a empresa e o Brasil de maneira mais competitiva no mercado global de transição energética, fortalecendo a presença nacional em um segmento que está se expandindo.

O Grupo Moura segue estratégia semelhante. Depois de décadas construindo conhecimento em baterias, a companhia passou a desenvolver sistemas de armazenamento para indústria, agronegócio, geração, transmissão e distribuição de energia.

Mas a disputa não será apenas brasileira.

O BNDES já relaciona, dentro do processo de avaliação de fornecedores para os leilões de armazenamento, nomes como WEG, Moura, BYD, Gotion, Trina, TBEA, SecPower e You.On. A presença na lista não significa credenciamento definitivo, mas revela a quantidade de grupos interessados em participar da formação desse mercado no país.

A chinesa BYD traz experiência global em baterias e mobilidade elétrica. A Gotion está entre os grandes fabricantes internacionais de células de lítio. A Trina ampliou sua atuação da energia solar para soluções de armazenamento. WEG e Moura, por outro lado, entram na disputa com produção local, engenharia e conhecimento do mercado brasileiro.

É uma competição que tende a envolver não apenas preço da bateria, mas também tecnologia, segurança, vida útil, software, integração com a rede, manutenção e capacidade de atendimento local.

O Brasil prepara um mercado ainda maior

Existe outro fator capaz de acelerar essa indústria: o governo brasileiro finalmente começou a estruturar a contratação de armazenamento em grande escala.

Os primeiros leilões específicos de baterias estão previstos para dezembro de 2026. Os projetos vencedores terão contratos de 15 anos, com início de fornecimento previsto para agosto de 2028. Um dos certames terá foco em sistemas com fabricação nacional.

O interesse chamou atenção.

A EPE recebeu o cadastramento de 6.091 projetos, que juntos somam 296.807 MW. Isso não significa que toda essa capacidade será construída — os projetos ainda precisam passar por análise e habilitação técnica —, mas o número revela a corrida empresarial que se formou ao redor do armazenamento.

Francisco Doehl Burmann, especialista em sistemas de armazenamento da WEG, resumiu o movimento durante evento da ABSOLAR: o armazenamento em baterias é “um caminho sem volta” para ampliar flexibilidade e confiabilidade do sistema elétrico.

Essa talvez seja a melhor forma de entender o que está acontecendo.

O Brasil não está criando apenas um mercado de baterias. Está começando a construir uma nova camada da infraestrutura elétrica.

Ao redor dela haverá fabricantes de equipamentos, empresas de engenharia, integradores, desenvolvedores de software, fornecedores de inversores, financiadores, operadores, instaladores, empresas de manutenção e negócios especializados em gerenciamento de energia.

Foi exatamente essa multiplicação de atividades que aconteceu com a energia solar. O painel foi apenas a parte visível de uma cadeia que cresceu ao redor dele.

Com o BESS, a bateria também é apenas a parte mais visível.

O verdadeiro valor estará em decidir quando armazenar, quando consumir e quando disponibilizar eletricidade, transformando energia em um recurso cada vez mais administrável.

Para as empresas, isso significa custo, segurança e produtividade. Para o sistema elétrico, significa flexibilidade para receber mais fontes renováveis. Para fabricantes e investidores, significa a abertura de um mercado que o Brasil começa agora a estruturar em escala.

A próxima disputa do setor elétrico brasileiro não será apenas por quem consegue produzir energia. Será também por quem consegue armazená-la, gerenciá-la e entregá-la no momento certo.

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